Agentes da Polícia Federal do Estado do Ceará, em uma ação
inédita no Judiciário do Estado, cumpriram ontem vinte e oito mandados de busca
e apreensão e treze de prisão preventiva (depois transformados em condução
coercitiva) no Tribunal de Justiça do Estado (TJCE). O Superior Tribunal de
Justiça (STJ) investiga suposto esquema de venda de habeas corpus, uso
irregular de veículos oficiais e “rachadinha” de gratificação envolvendo
desembargadores, juízes, advogados e servidores.
A ação, que corre em segredo de justiça e, busca apurar
a possível venda de liminares em plantões judiciais, o caso também vem sendo investigado
pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Foram cumpridos mandados de busca e apreensão no gabinete e
na residência do desembargador Carlos Feitosa. O desembargador, que tem foro
privilegiado, foi afastado do cargo pelo prazo de noventa dias.
O desembargador, Carlos Feitosa, prestou depoimento na sede
da Justiça Federal/CE. Além do desembargador, estão sendo investigados os
desembargadores aposentados Paulo Timbó e Váldsen da Silva Alves Pereira.
O inquérito judicial foi aberto pelo ministro do
STJ, Herman Benjamin. O desembargador do Tribunal Regional Federal da 5ª
Região, Rogério Fialho, foi designado pelo ministro para colher o depoimento do
acusado.
Paulo Timbó é investigado por integrar suposta
rede organizada de compra e venda de habeas corpus para soltura de presos
nos plantões de fim de semana e feriados do Judiciário.
Desde o ano de 2013, Váldsen Alves vem sendo investigado
por ser responsável por liminares que concederam a candidatos reprovados em
concurso para soldado da Polícia Militar de 2008 o direito de assumir a função
pública. A integração aos quadros da PM teria beneficiado, inclusive, pessoas
que nem sequer haviam se inscrito no certame.
O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, em nota
oficial, informou que o “objeto da diligência” realizada no prédio não poderia
ser revelado mediante o caráter sigiloso das investigações.
Segundo consta nas investigações cerca de trinta
advogados, cinco magistrados e dez servidores da Justiça do Estado estão sendo
investigados por envolvimento em um suposto esquema de venda de alvarás.
A informação é do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará,
Valdetário Monteiro. Segundo Valdetário, há suspeita de que traficantes de
outros Estados teriam inclusive pedido transferência para o estado
do Ceará para se beneficiarem do possível esquema.
“Suspeita é que traficantes do Rio de Janeiro, de
São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, estavam sendo transferidos
para o Ceará, e aqui postulavam, aos fins de semana, a possibilidade de obterem
liminares”, diz Valdetário. A "rede de informações" foi descoberta em
interceptações telefônicas em presídios brasileiros.
Valdetário Monteiro, em
entrevista coletiva na manhã de hoje, 16/06, comunicou que ações do Tribunal de
Ética da OAB-CE estão paralisadas até a divulgação de dados coletados pela
Polícia Federal no caso.
Valdetário destacou, ainda, que as ações ainda
correm em segredo de Justiça, não podendo ser revelados detalhes. Mas afirma
que, em caso de irregularidades comprovadas, advogados envolvidos serão
expulsos da OAB.
Valdetário Monteiro diz defender “investigações
aprofundadas” para uma das “crises mais graves que o Judiciário já passou”. Ele
reforça que mantém cobrança para que o TJ-CE entregue ao órgão mais informações
sobre o caso.
Veja abaixo nota pública da OAB/CE.
NOTA PÚBLICA
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional
Ceará, diante das recentes notícias de corrupção no Judiciário Cearense, vem a
público informar o que segue:
- Em ofícios encaminhados em abril de 2014, a OAB – Seccional
Ceará solicitou ao então presidente do Tribunal de Justiça do Ceará,
desembargador Luiz Gerardo Pontes Brígido, e ao então presidente do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), ministro Joaquim Barbosa, o encaminhamento dos nomes
dos advogados envolvidos na concessão de liminares e soltura de presos, bem
como as provas existentes, para que fosse adotado procedimento administrativo
interno, visando a punição dos responsáveis pelos atos ilegais;
- O TJCE não respondeu à solicitação da OAB –
Seccional Ceará e o CNJ informou que não havia nenhum pedido de investigação
por parte do então presidente Brígido, seja contra magistrados, promotores,
advogados ou servidores do Judiciário;
- Em 11 de junho de 2015, ou seja, antes mesmo
das últimas denúncias, a OAB – Seccional Ceará já havia resolvido interpelar
judicialmente o desembargador Luiz Gerardo de Pontes Brígido para apresentação
das provas de envolvimento de advogados na compra de habeas corpus durante os
plantões do TJCE, em 2014, período em que exercia a presidência do TJCE;
- Considerando a gravidade das denúncias, a OAB –
Seccional Ceará e o Ministério Público Estadual abriram investigações internas
e reforçaram junto à Corregedora do CNJ, ministra Nancy Andrighi, a necessidade
da apuração das investigações;
- A OAB – Seccional Ceará ratifica o seu
compromisso em defesa do fortalecimento da Justiça como bem inalienável do
cidadão brasileiro, comprometendo-se a adotar todas as medidas legais para
julgar e punir os advogados envolvidos na compra de liminares, o que inclui o
acompanhamento vigilante de todo o processo penal;
- Finalmente, a OAB – Seccional Ceará soma
esforços ao TJCE, STJ e CNJ no intuito de sanear a Justiça Cearense,
colocando-se desde sempre à disposição de todas as instâncias do Judiciário na
luta para torna-lo cada vez mais ético, forte e livre da ação de corruptos e
corruptores.
Valdetário
Andrade Monteiro
Presidente
da OAB-CE

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